Há mais coisas entre o céu e a terra...

(PARTE 1 DE VÁRIAS)

OS CARISMÁTICOS

Lucelmo Lacerda é Historiador e Mestrando em História pela PUC-SP  

 

Essa é uma série de artigos que faço comentando as principais religiões presentes no Brasil.

 

Começo pela Igreja Católica que, por ser a maior do Brasil e muito heterogênea, divido em três partes, Carismáticos, Libertadores e Conservadores.

 

Entre os primeiros cristão, desceu o Espírito Santo no evento de Pentecostes. O mesmo trouxe consigo seus dons. Os principais foram elencados por Paulo, cura, milagres, línguas, interpretação de línguas, profecia, ciência, sabedoria, discernimento e fé.

Esses dons “esfriaram” nas gerações seguintes e o teólogo  São João Crisóstomo concluiu que os dons haviam sido dados somente aos primeiros cristãos para edificação da Igreja, sendo retirados em seguida.

Essa tese foi aceita pela Igreja sem se tornar dogma e durante séculos pouco se ouviu falar no Espírito Santo. No entanto, no Concílio Vaticano II, evento pastoral ocorrido na Igreja entre 1962-65, trouxe à tona com todo vigor a pneumática (aquilo que remete ao Espírito Santo) e tornou oficial a teoria de que os dons são perenes e estão ainda hoje presentes.

Eis que, em 1967, em Pittsburg, Pensilvânia, Estados Unidos, um grupo universitário ora em línguas e sofre uma experiência que definem como “Batismo no Espírito Santo”, remetendo à Bíblia.

Então montam um movimento denominado “Pentecostalismo Católico” e depois chamado de Renovação Carismática Católica – RCC.

A RCC chegou ao Brasil em 1969, com o jesuíta Pe. Harold Rahm que, a partir de Campinas divulga o movimento de modo mais racionalista e acreditando, mas não exercitando os dons. Dessa tendência participa, por exemplo, o Frei Felipinho.

Mas em seguida chega o também jesuíta e também estadunidense Edward Dougherty, que disputa a hegemonia do movimento na década de 70 e a conquista em 1978. Sua espiritualidade é mais emotiva e usa intensamente os dons do Espírito, participando também do dualismo, característica dos que tendem a acentuar a presença do demônio. Dessa tendência participam, por exemplo, Pe. Jonas Abib e Eroni.

A RCC se destacou na década de 90 por vários motivos:

1. Crise da Teologia da Libertação com a redemocratização e com a queda do Muro de Berlim e conseqüente crise da esquerda;

2. Contra-ataque da Globo contra a Record com superexposição do Padre-Espetáculo Marcelo Rossi;

3. Crise identitária do homem Pós-Guerra-Fria, à qual a RCC respondeu com mística e emotividade;

Hoje a RCC possui uma boa fatia dos fiéis católicos, tem forte presença política no país e duas redes de Televisão, a Século XXI e a Canção Nova.

Igreja e Seita, Record e Folha

  

Lucelmo Lacerda é Historiador e Mestrando em História pela PUC-SP 

 

No domingo último, no Domingo Espetacular, no mesmo dia às 23:00, no dia seguinte no Hoje em Dia e no Fala Brasil, a Rede Record exibiu uma reportagem sobre fiéis que entraram na justiça contra a Folha de São Paulo. São dois os motivos, o primeiro é o levantamento de uma hipótese de lavagem de dinheiro por parte da Igreja Universal, o outro é a classificação da mesma, no jornal, como “Seita”.

Para a conceituação do termo, me convidaram para depor, como especialista em História das Religiões. Começo dizendo que sou Católico Apostólico Romano, não guardo nenhuma simpatia pela Igreja Universal, inclusive a critiquei duramente em um outro programa que participei como debatedor, sobre Tv e Diversidade Religiosa, na Tv Câmara, (clique aqui para assistir).

Abaixo segue o vídeo e, como minha fala foi editada, abaixo vai o conteúdo completo de minha opinião:

  

 

As categorias Típico-Ideais de "seita" e "igreja", formuladas por Troelsch, e do domínio da sociologia caracterizam "igreja" como aquele que pretende hegemonizar o mercado religioso, para isso ela se abre, negocia com o mundo, não exige fidelidade estrita dos fiéis a princípios rígidos, mas promove teologias que justificam as diferenças e se esforça por açambarcar toda a sociedade.

A "seita" ao contrário, não negocia com o mundo, não dialoga com ele, pois detém toda a verdade, seus fiéis devem se adaptar às regras do grupo, caso contrário, são afastados. A seita hostiliza o mundo.

No entanto, essas categorias são insuficientes para explicar a realidade e muito dificilmente ainda são usadas, mas caso sejam, de nenhuma forma a Universal pode ser considerada como "seita", pois ela se abre totalmente ao mundo para conquistar fiéis. Enquanto grupos que se aproximam mais de seitas exigem uma estética abnegada, com cabelos e saias longas, ausência de maquiagem, a Universal aceita a estética do mundo, uma fiel da Universal pode, por exemplo, usar fio dental na praia.

A Universal também não exige renúncia à televisão ou à música mundana e se imerge na mentalidade capitalista através da "teologia da prosperidade", em que o fiel dá uma doação para a Igreja e desafia Deus a lhe dar a graça da prosperidade. Mas nessa teologia, Deus não recompensa o dinheiro, mas a fé, e a fé é medida pelo risco do desafio e o risco é medido pela quantia doada, um poderoso estratagema de arrecadação.

A Igreja Universal não enfatiza a salvação, a escatologia, a vida após a morte, seu lema é o aqui e o agora, algo pode ser mais adverso de uma seita, sociologicamente falando, do que isso.

Alguns sociólogos chegaram a classificá-la como "agência", que seria oposto da "seita". A agência se caracterizaria pela prestação de serviços mágicos e individualistas. Assim, para esses sociólogos, a Universal oferecia produtos, uma cura, prosperidade, sucesso no amor, em troca de um pagamento. Tal categoria foi recusada pela principal referência teórica no assunto, o Prof. Ricardo Mariano, que aponta que a Universal também tem um público fixo, de membros, que não se relacionam com a Igreja como Agência.

Chegamos então à conclusão de que a Universal é um misto de Agência, pois oferece serviços individualistas, com Igreja Pentecostal, pois tem um grupo de fiéis também interessados na economia da salvação.

Mas vejamos, do ponto de vista sociológico, afirmar determinado grupo como "seita" não é pejorativo, mas simplesmente um enquadramento específico no âmbito típico-ideal.

Mas falando do termo em geral, concluímos que o mesmo é utilizado na escritura bíblica em seu sentido mais operacional, para designar grupos dentro do judaísmo. Depois da Reforma Protestante, a Igreja Católica recupera o termo para designar pejorativamente os separados, a "seita protestante", não no sentido bíblico, mas no sentido de "aqueles que não são igreja", pois a Igreja Católica se entendia como A ÚNICA igreja.

Depois das reformas do Concílio Vaticano II, após 1965, os católicos foram aos poucos abandonando esse termo, para pejorativamente se referir aos demais agrupamentos religiosos, classificando-os, recentemente, como igrejas.

De toda forma, no senso-comum, a palavra "seita" é pejorativa, remete "àqueles que não são igreja", apontando uma hierarquia inexistente na sociologia, entre igreja e seita, sendo este menos valoroso do que aquele.

TV e Diversidade Religiosa

 

Lucelmo Lacerda é Historiador e Mestrando em História pela PUC-SP

 

A TV Câmara produz e veicula um programa denominado “Ver TV”, que discute a televisão em relação à sociedade, o apresentador é o Sr. Lalo Leal, da USP, que sempre recebe três especialistas no tema discutido.

Há algumas semanas foi gravado o programa sobre TV e Diversidade Religiosa e foram convidados o Sr. Valadão, pesquisador do CNPQ, José Ricardo de Souza, Doutor pela USP e Pós-Doutorando pela PUC e este autor que lhes fala.

O programa foi ar ar neste fim de semana e já está disponível no sítio eletrônico da TV Câmara e o tema é pertinente de mdodo que adianto aqui alguns elementos dessa discussão, enquanto o programa pode ser visto logo abaixo, dividido em três partes.

 

Toda rede de televisão precisa de uma faixa do espectro eletromagnético para veicular sua programação e essa faixa é pública, cedida aos donos de TV, cujo uso é regulado pela Constituição Federal. O grande problema da participação das religiões nas televisões são muitos, sobretudo:

1.                       O desequilíbrio promovido pela Televisão entre as religiões que possuem mais ou menos recursos financeiros para garantir uma presença mais intensa na telinha;

2.                       Há, pelo menos, três grandes preconceitos reproduzidos comumente por muitas religiões na TV, são eles o de gênero, contra as mulheres, a homofobia, contra os homossexuais e principalmente contra as religiões afrobrasileiras;

 

Segue o Programa em três partes

 

Ratzinger, Boff e a “Igreja de Cristo”

Lucelmo Lacerda *

 

Não, não se enganem, este artigo não se propõe a responder qual é a verdadeira Igreja de Cristo, mas tão somente remontar a história recente deste debate acerca da Igreja de Cristo e de que forma se enredam nele Joseph Ratzinger, agora Bento XVI e o Teólogo brasileiro Leonardo Boff.

Historicamente, a Igreja sempre se afirmou como “a Igreja de Cristo”, a única Igreja, valorizando o elemento identitário entre a divindade e a instituição na terra. Depois da Reforma Protestante houve um primeiro momento de negação de qualquer valor eclesial das demais denominações que não a Católica e mais recentemente, e especialmente por ocasião do Concílio Vaticano II, evento Católico que reuniu os bispos de todo o mundo entre 1962-65, elevou-se o debate sobre a presença e natureza dessas demais denominações.

O documento preparatório do Concílio afirmava que “a Igreja Católica é (est) a Igreja de Cristo”, o que foi mudado no documento final por “a Igreja de Cristo subsiste na (subsistit in) Igreja Católica”. Tendo em vista que no imediato pós-Concílio em que os ventos progressistas eram francamente largos na Igreja Católica em todo o mundo, havia uma inteligência liberalizante sobre o texto conciliar e o trecho em questão não foge à regra. Na Europa predominantemente liberal e na América Latina mais propriamente libertadora, as correntes progressistas coincidiam na leitura do subsistit in em acordo com a aceitação da pluralidade eclesial, no sentido de que a Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica (de forma mais perfeita, em toda sua expressão), mas não somente nela, subsistindo também no mundo protestante, que também constituiria Igrejas.

Eis, no entanto que o influxo progressista sofre duro golpe com a eleição de Karol Wojtyla. Articulada pela ultra-conservadora Opus Dei, a eleição de João Paulo II com 58 anos e tempo o bastante pela frente para dirimir os movimentos progressistas, significou um movimento de retrocesso das inovações pós-Conciliares. O mais poderoso parceiro de Karol nessa cruzada foi Joseph Ratzinger, que assumiu a Prefeitura da Congregação para a Doutrina da Fé em 1981.

Enquanto alguns setores conservadores, sobretudo os ligados a Marcel Lefebvre, propugnavam a recusa total do Concílio Vaticano II, Karol e Ratzinger optaram por relê-lo à luz da nova correlação de forças e amparados pela estrutura católica que é extremamente autoritária e não leva em consideração maiorias e minorias. A vontade papal (e da Cúria) tem uma margem de manobra imensa.

                                                                     (CONTINUA)

(CONTINUAÇÃO)

 

A cruzada contra as leituras chamadas “desviantes” do Concílio Vaticano II se deu, sobretudo, naquilo que levava a um compromisso com a libertação dos pobres (Teologia da Libertação) e o que levava ao pluralismo religioso com a afirmação da plena eclesialidade protestante. O termo subsistit in é tomado por Raztinger como sinônimo de est, cuja troca, segundo ele, é motivada pela amenidade do novo termo e não por uma diferença em seu significado, Razinger afirma que “O Concílio tinha, porém, escolhido a palavra "subsistit" exatamente para esclarecer que há uma única ‘subsistência’ da verdadeira Igreja, enquanto fora de sua estrutura visível existem somente ‘elementa Ecclesiae’(cf. AAS 77,   1985, 756-762). Isto é, para ele, as organizações protestantes têm apenas, elementos eclesiais e formam comunidades eclesiais, mas não igrejas.

O método da cruzada, como sempre, é a violência, neste caso a simbólica. Bem afirmou Bourdieu que uma religião em virada conservadora sistematiza normas e doutrinas mais do que nunca, pois foi o que se deu no catolicismo, a uniformização da doutrina, sobretudo o catecismo, foi algo fundamental nesse processo. A nomeação de bispos, cujo critério primaz passou a ser a plena fidelidade aos rumos de Roma foi uma novidade e a condenação dos Teólogos a face mais dura desse processo.

O caso mais notório em todo o mundo foi o processo contra o Teólogo e Frei Franciscano Leonardo Boff, em função de seu livro “Igreja: Carisma e Poder”. Neste livro o autor reúne variados artigos escritos em épocas distintas e faz uma profunda reflexão sobre a estrutura da Igreja, concluindo por propor uma Igreja Paulina, baseada no princípio do carisma e da Hierodulia (estrutura de serviço) em oposição ao princípio petrino e fundada na Hierarquia (estrutura de poder).

O livro é condenado e o autor censurado e obrigado a um silêncio obsequioso revogado depois de um ano. Boff é alvo não por si mesmo, simplesmente, mas como símbolo da transgressão dos interesses de Roma, o ataque ao mesmo não é um ataque pessoal, mas à Igreja do Brasil, à Teologia da Libertação e a todos os dissonantes.

Especialmente na questão da identidade não única da Igreja Católica para com a Igreja de Cristo, chave do pluralismo religioso, é considerada como matriz dos relativismos religiosos por Ratzinger, que congratula Boff com uma nota no documento Dominus Jesus (2000), como exemplo de erro.

Dez anos depois da condenação, em 1994, e já fora da Ordem Franciscana, Boff escreve uma refutação da condenação, publicada em nova edição do polêmico livro em que aponta citações, erradas, trechos inventados e um pastiche (ajuntamento de trechos de vários artigos de modo a deformar seu significado) e classificando a maioria dos apontamentos como problemas de leitura ou irrelevantes, detendo-se, no entanto, na que considera como única questão verdadeiramente doutrinal da condenação que é a questão da singularidade ou multiplicidade da subsistência da Igreja de Cristo. O teólogo brasileiro ainda voltou à questão em resposta ao Dominus Jesus em 2000 com um artigo denominado “Quem Subverte o Vaticano II, Ratzinger ou Leonardo Boff.”, reafirmando sua posição.

Agora novamente Boff é dignado com uma nota como mau exemplo na “Respostas a algumas perguntas sobre certos aspectos da doutrina sobre a Igreja” apresentada no dia 10/07/2007 pelo Vaticano.

É preciso compreender que os textos, a tradição não tem uma aura per se verdadeira, universal, mas que é lida, reconstruída, em conformidade com os interesses sociais hegemônicos. O texto Conciliar é um só, mas sua interpretação é subordinada à correlação de forças que se movimentam no interior da Igreja Católica. Os grupos em luta pautam a intelegibilidade do catolicismo, refazendo, remoldando, ressignificando o mesmo dia após dia de acordo com sua dinâmica interna em diálogo constante com a realidade que o envolta.

O que é a Igreja Católica, a “voz dos que não têm voz”, defensora dos Direitos Humanos ou o bastião do conservadorismo, contra os direitos da mulher que processa um teólogo num procedimento em que o mesmo Vaticano é acusador, defensor (sic) e juiz? A resposta é: Depende de onde, em que tempo. As disputas na Igreja respondem à dinâmica de seus grupos em luta e os conservadores estão em alta, portanto, hoje, na Igreja de Roma, a Igreja Católica é (est) a Igreja de Cristo!.

 

* é Historiador e Mestrando em História pela PUC-SP. Estuda o processo eclesiástico sofrido por Leonardo Boff em 1984.

Neutralidade tecnocrata

 

 

    O termo “Ideologia” é de estirpe marxista, e o fundador da teoria o usava no sentido de mentira camuflada pelos interesses dominantes. Em Marx, o indivíduo carregado de ideologia estava a serviço dos interesses da burguesia, reproduzindo sua versão do mundo às demais classes. Já Lênin, o principal marxista do século XX, interpretava a ideologia como coerência com determinados princípios. Assim, ser um socialista ideológico significava coerência com o conjunto das idéias socialistas, o que também se aplicava à burguesia, quanto mais ideológica, mais próximas suas idéias de seus reais interesses.

Na Guerra Fria, na desenfreada luta entre o lado capitalista e o comunista do mundo. Ambos produziam armas e idéias (ideologia, devo dizer) para destruir o adversário. O lado capitalista começou a associar o termo “ideologia” à esquerda no mesmo sentido marxista, de mentira, ser socialista era ser ideológico. E ser capitalista, o que era? Era ser verdadeiro, ver o mundo como ele é. Assim se reforçou a farsa da neutralidade e da técnica.

O que começou a se disseminar foi a balela de que a técnica é neutra, que deve ela governar, é a chamada tecnocracia. No entanto, se camufla a realidade de que não há neutralidade, de que todo ser é, nas palavras de Paulo Freire “um ser no mundo” e que no mundo está em alguma circunstância pela própria realidade da física, e estabelece inevitavelmente alguma reação em relação ao mundo, ainda que seja de apatia, reforçando as estruturas vigentes. A técnica, nada mais é que “uma técnica” construída num horizonte ideológico específico e sempre responde à realidade de classes.

No âmbito dos governos, tal ideologia se reflete na dicotomia Administrador/Político. A falsa divisão põe de forma adversativa duas faces inerentes a todo político que goverrna uma esfera estatal. O governante “administrador” nada mais é que um governante que faz a política de alentar tal imagem, outros ainda se esquecem da ação política propriamente dita de disputar suas idéias na sociedade, e relega seu governo a um gerenciamento da máquina que não constrói senão um continuísmo.

A natureza da política é a disputa de caminhos para a sociedade no âmbito da sociedade política e da sociedade civil. A administração pública, em quaisquer esferas, propõe uma política administrativa e a realiza com seus cargos de confiança, escolhidos que são com critério político, isto porquê não há como se realizar e multiplicar determinado projeto político por mero zelo profissional, mas sim por compromisso com determinada proposta política.

Não há técnica que não responda a um interesse objetivo na sociedade, não há neutralidade que não seja conivência com o continuísmo, não há governante “administrador” (ainda que haja os que pensam ser). A política é a arte de propor um mundo, um novo ou a continuação do mesmo, e de pensar tudo a partir dessa opção. Daí para frente tudo se faz em função dessa opção, o linguajar, a estética, a ética e, é claro, a administração.

 

 

 

 

LUCELMO LACERDA É HISTORIADOR E MESTRANDO EM HISTÓRIA SOCIAL PELA PUC-SP

O desafio do ambientalismo (parte 1)

                                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                                                      

                                                                                                                                                                         

O Ambientalismo é um fenômeno fundamentalmente da classe média e principalmente classe média alta, é desta forma por não figurar entre as necessidades básicas mais prementes do ser humano, por ser uma preocupação deduzida a médio e longo prazo e que os mais pobres têm mais dificuldade de discutir por conta do ruído do próprio estômago.

Aparece, porém, com uma limitação profunda, devido a pouca influência, em suas classes constituintes e em seu processo de formação, do movimento histórico de contestação do sistema capitalista. O ambientalismo carece de um método de análise da realidade que permita enxergar a raiz do sistema como intrinsecamente destrutivo, não consegue ver a oposição capitalismo X natureza, o mundo é entendido como pessoas boas (que preservam o meio ambiente) e pessoas más (que não preservam o meio ambiente), assim podemos entender que uma eficiente campanha de conscientização seria a saída perfeita para o problema. Esquecem-se, porém, de algumas lições:

O Capitalismo nasceu como um sistema de exploração do ser humano (já está aí um belo problema ambiental, afinal, fazemos parte do meio ambiente) através da concentração dos meios de produção, este trajeto caminha naturalmente para o acúmulo.

 As empresas concorrem entre si provocando a queda das taxas de lucro e tendem a engolir umas às outras instaurando o monopólio, com o fim da concorrência, o elemento de dinamismo do capitalismo passa a ser o consumismo, palavra-chave da destruição ambiental. Na atual fase do sistema, em que, devido à tecnologia, as mercadorias possuem muito pouco valor, este entendido como trabalho socialmente agregado ao produto, imaginem se todos comprássemos televisões, móveis e roupas que durem dez anos, acabaria o capitalismo.


O desafio do ambientalismo (parte 2)

 

O consumismo é um instrumento que gira várias estratégias de manutenção do sistema. Os meios de comunicação são os grandes pilares desse mecanismo, é a televisão e a propaganda que faz de coisas supérfluas coisas essenciais.

Há pelo menos duas lições que devem ser entendidas pelo ambientalismo para que sua interpretação da realidade seja mais precisa e menos ingênua. Somente desta forma poderá planejar sua intervenção na sociedade de modo eficaz:

1- A luta de classes como elemento estruturador da sociedade capitalista. Assim, o lucro da burguesia é proporcional à sua capacidade de exploração do trabalhador, e a depredação da natureza é, na verdade, instrumento de maximização dos percentuais de extração de mais-valia (trabalho não pago) do trabalhador.

2- Somente um sistema em que a exploração desapareça pode criar homens e mulheres novas, capazes de abdicarem de um maior conforto em função de uma estabilidade a longo prazo com a natureza, trata-se de entender as condições concretas como condicionantes do homem.

Esse é o limite histórico do ambientalismo, (histórico, porém, mutável) que o relega a discussões superficiais e conjunturais, nunca estruturais. Falta-lhes o método da luta de classes como instrumento de análise da realidade e a prática revolucionária como verdadeiro amor ao meio ambiente que nos ameaça com o fim de nossa casa Terra, como o dizem os Incas, Pancha Mama, a Grande Mãe.

 

 

 

 

LUCELMO LACERDA é Historiador e Mestrando em História pela PUC-SP

O “caso RCTV” no processo Bolivariano

(Parte 1)

 

 

A não renovação de um tv de canal privado, na Venezuaela, a RCTV está sendo largamente debatida em várias instâncias de todo o mundo. No Brasil, a maioria das leituras que os cidadãos acessam é, infelizmente, da mídia gorda, que tem interesses muito particulares na questão, a quem interessar informação com credibilidade e debate qualificado dobre o assunto, recomendo entrar no sítio www.cartamaior.com.br, da Agência de Notícias Carta Maior, é só pesquisar por RCTV que aparecerão vários artigos sobre o tema, também é de muita qualidade a última edição da Revista Carta Capital que trata do poder da mídia.

Isto posto, colocamos que o intuito do presente artigo não é reiterar essa discussão, somente em passant, nosso desejo é colocar o “caso” no contexto do processo Bolivariano, liderado pela Venezuela.

A mídia gorda e os EUA vociferam contra Chávez e arrastam consigo os que estão em seu arco de influência, a opinião pública, incluindo de grande parte dos políticos de todo o mundo, e os organismos internacionais, tradicionalmente fiéis aos EUA. A alegação dessas forças em favor da renovação da licença da RCTV é a “liberdade de expressão”, assim pensamos “ora, o dono da RCTV pode continuar falando, gritando suas opiniões” , eles bradarão “mas como? Sem a tv, quase ninguém o ouvirá!” eu retrucaria “muitos milhões de venezuelanos não possuem canais de tv, por que vocês nunca bradaram pelo cerceamento da liberdade de expressão deles?”. É indefensável, se trata de manter a opinião na mão de uma classe social, a burguesia, dona de 81 canais privados, contra 4 públicos.

Mas para não entrar na questão de classe social, muitos leitores podem ser burgueses (ou pensarem como burgueses), vamos para uma questão mais concreta: a lei. A liberdade de expressão exige responsabilidade, ninguém tem liberdade para caluniar, é crime, para difamar, é crime, para incitar assassinatos, é crime, outrossim, um canal de TV funciona com uma faixa radioelétrica que é propriedade do povo, por isso, co pode funcionar com concessão pública. É o que a TV deve dar ao público para “pagá-la” por estar lucrando com um sinal que não é dela e que não é alugado, é concedido? Isso é determinado pela constituição, a pergunta é: a RCTV cumpria esses requisitos?

As transmissões do canal RCTV foram suspensas em 1976, por “notícias falsas e tendenciosas”;  em 1980, por  “relatos de fatos pouco edificantes”; em 1981, por “um filme de corte pornográfico” e punida em 1984 por ridicularizar “de forma humilhante” ao então presidente Luis Herrera Campins e sua esposa. Hoje existem 600 acusações por vários crimes, contra a RCTV na CONATEL, Comissão Nacional de Telecomunicações, entre eles racismo, a prostituição, o machismo, o uso de drogas, a violência, a destruição familiar, o desrespeito às instituições do Estado. Basta entrar no you tube e ver-se-á vários vídeos da RCTV que retratam essas acusações e mesmo de pedofilia.

Pensemos no Brasil, um deputado que brade para que os negros voltem a ser escravos e chicoteados, o que deve acontecer com ele, a liberdade de expressão está acima da lei. Um jornalista da RCTV recebeu a reunião que organizou a conspiração do golpe de 2002, um de seus diretores foi um dos primeiros a serem recebidos pelo mais efêmero ditador Pedro Carmona. Quando o povo foi às ruas e exigiu a volta de Chávez ao poder, a RCTV, acuada, passou a exibir o filme “Uma Linda Mulher” e “Tom e Jerry” no horário nobre.

O “caso RCTV” no processo Bolivariano parte 2

Quem quiser saber um pouco mais sobre o assunto pode acessar http://www.bibliotecayacucho.gob.ve/fba/index.php?id=55&no_cache=1&file=16&uid=163  e baixar o “Livro Branco da RCTV” ou consultar o Blog do Azenha, ex-jornalista da Globo http://viomundo.globo.com/.

Vamos ao processo Bolivariano. Chávez é, na verdade, uma personalidade que soube capitalizar as forças populares emergentes na América-Latina e dar a elas um impulso, ao conjunto chamo de “processo Bolivariano”. Isto porque se funda, como mito fundador, na figura libertadora de Simon Bolívar, assim como a Revolução Cubana se fundou em José Martí. Há dois vetores de ação nesse processo, que são dialéticos e simultâneos: o impulso pela independência da América-Latina, e o impulso contra a burguesia latino-americana. Afinal, não teria graça só trocar de dominador.

Esse processo nem poderia ser diferente, uma vez que nossa burguesia comprou a ideologia do centro do capitalismo, não consegue se ver como protagonista, mas somente como suporte no sistema global. Chávez então lidera um processo de profundas mudanças na Venezuela, em que tira das mãos da burguesia e entrega ao povo, os Conselhos Comunitários nesse país tem um poder inimaginável e agora passarão a comandar também as forças policiais, isto é, há uma subversão da funcionalidade real da polícia, de garantir a propriedade contra os que a produzem para entregar aos pobres, os que a produzem o comando da polícia, é nesse sentido que se insere a não renovação da transmissão da RCTV, como elemento na retirada de poder das mãos de uma pequena burguesia e transferência desse poder ao povo. O Socialismo do Século XXI nasce sob o signo da democracia profunda.

Depois do golpe de estado financiado pelos EUA, em 2002, Chávez fortaleceu-se, pois demonstrou a fragilidade do projeto neoliberal e investiu na ampliação da influência do “processo” na região, ganhou a Bolívia, Nicarágua, Chile, Uruguai, Brasil, Argentina, agora aproximou-se do Peru, no México perdeu devido a uma fraude e ainda este ano deve ganhar no Paraguai e Guatemala. Todos esses são importantes, mas principalmente o Equador, pois lá está a base avançada dos EUA sobre a América do Sul, que Rafael Corrêa não renovou e deve sair até 2009 do país.

Os EUA costumam atacar militarmente os países dissidentes, tem um poderio militar inimaginável, mas não pode travar uma guerra não ser com uma base próxima, como o Paquistão no Afeganistão. Sem o Equador resta a Colômbia (metade, pois a outra metade é das FARC), com o risco da população insatisfeita unir-se às FARC. Talvez o Panamá, mas que é muito longe, ou seja, torna inviável a alternativa hoje seriamente considerada em Washington, matar os Venezuelanos.

É verdade que o “processo Bolivariano” é ainda muito dependente da personalidade de Chávez, no entanto, no interior da Venezuela há um grande esforço no sentido de construir um movimento popular poderoso, participam desse esforço os mais de mil médicos cubanos que para lá foram atender não favelas e comunidades rurais e também a transferência de poder do estado para o povo, haja vista a nova TV que entra no lugar da RCTV, a Tevês, que é comandada por um conjunto de movimentos populares, jornalistas e docentes.

Ademais, novos elementos aparecem nesse processo, o elemento étnico, já anunciado pela constituição física de Chávez (diversas vezes achincalhada pela RCTV, “negro”, “índio” de forma pejorativa), mas trazida à tona por Evo Morales. Também a associação com uma retomada de forças da Teologia da Libertação, que outrora a CIA classificou como “mais perigosa que o comunismo”, basta ver Rafael Corrêa, do Equador, formado nas Comunidades Eclesiais de Base – CEBs, Fernando Lugo, do Paraguai, ex-bispo e Rigoberta Menchú, Nobel da Paz, da Guatemala, militante histórica da Teologia da Libertação.

 

No mais, estou fazendo meu papel no processo Bolivariano!

 

LUCELMO LACERDA é Historiador e Mestrando em História Social pela PUC-SP (LUCELMO@GMAIL.COM)

Teologia da Libertação, Paulo Freire e Gramsci: Uma boa salada

Bom, juntar elementos tão díspares num só artigo é tarefa difícil e, evidentemente, não pode consistir em trabalhar toda a dimensão dos três, mas acolher um tema e desenvolvê-lo. Escolho o desenvolvimento intelectual do explorado como fio de costura de três matrizes de pensamento: as teorias do pensador italiano Antônio Gramsci, do educador brasileiro Paulo Freire e da latino-americana Teologia da Libertação – TL.

   Gramsci viveu na Itália do começo do século XX, metade sul camponesa e metade norte industrial. No esforço de construção de uma cultura operária, criticou duramente a intelectualidade italiana da época, sobretudo Benedetto Croce, pois, segundo Gramsci, este liderara os intelectuais em seu descolamento da massa italiana, rumo à conjunção com a burguesia e a aristocracia feudal.

Quanto à Igreja, Gramsci denunciou sua construção de duas culturas, uma “baixa”, acessível à massa de camponeses e operários mais atrasados (os pobres eram a grande massa católica) e uma outra cultura erudita, de elite, cujos conceitos teológicos eram muito sofisticados. No entanto, essa Igreja jamais se empenhou na elevação intelectual desses camponeses e operários, primando pela continuidade da relação desigual, receando somente uma ruptura (potencialmente explosiva).

Gramsci, por outro lado, empenhava sua ação na emancipação cultural do operariado e do campesinato. Em seu entender, estes deveriam tomar as rédeas da construção de sua própria cultura, construída em conformidade com seus interesses concretos, criando uma relação orgânica entre realidade e conhecimento.

Passando a Paulo Freire, sua teoria preconizava a divisão esquerda/direita não somente como conteúdo, mas como forma. Para ele, a imposição de um determinado conjunto de conhecimentos ou de opinião aos trabalhadores, era também uma prática de direita, mesmo que conteúdos fossem de esquerda, era o que ele chamava de “colonialismo de esquerda”. O educador preconizou a relação dialógica entre o educador/educando e o educando/educador, colocando o primado da auto-construção do conhecimento como elemento central de seu método. Assim, da vida do pobre emana os elementos de sua criticidade, na própria contraditoriedade da luta de classes.

Dou um exemplo, um camponês disse que não tinha dinheiro para “dar as coisas a seu filho” e Freire perguntou “por quê?” o camponês respondeu “por que Deus quis”, Freire perguntou quem na sala era pai, todos levantaram a mão e ele perguntou “algum de vocês, como pai, mandaria um filho para Fortaleza, para ficar sem fazer nada, só na praia, e os outros pra trabalhar para sustentá-lo?”, o “não” foi sonoro e unânime e ele então perguntou “e Deus, faria isso?”, o camponês que originou o diálogo retrucou um “não, a culpa então é do patrão, que explora a gente”. Resolvido, mais nada a falar de Paulo Freire.

    Quanto à Teologia da Libertação, embora o tema seja largo e anterior à formulação da “opção preferencial pelos pobres”, editada em Puebla, 1979, é dela que vamos partir.  Embora a fórmula carregue a ambigüidade que dá resguardo à caridade dos conservadores e a gana libertadora dos progressistas, a questão central da “opção” é uma opção de método teológico. A TL subverte a teologia tradicional católica porque não provêm dos anjos que se comunicam com um mudo enclausurado, mas da vivência de milhões de cristãos que vivem sua fé a partir da vida concreta, refletindo criticamente sua inserção na luta de classes. Assim, estabelece-se uma ortopráxis, isto é, uma obediência à práxis (conjunto orgânico de prática e teoria), em contraponto à ortodoxia, a obediência à “doxa”, ao escrito e consolidado da tradição romana.

Esta não é, no entanto, somente uma postura política, mas epistemológica. Como propõe Hinkelmann, a visão a partir “do último”, é a única completa e ética. A ciência a partir do “não poder” é o locus adequado à vista do pesquisador. Assim, a TL se configura como teoria que conta com a colaboração de teólogos das mais variadas classes que aderiram à causa da libertação dos pobres, mas sua substância essencial está na leitura popular das Comunidades Eclesiais de Base e na emancipação deste povo pobre a partir da reflexão crítica da Bíblia.

A amarra de Gramsci, Paulo Freire e a Teologia da Libertação entre si é certamente o esforço pela emancipação integral do pobre, incluindo a dimensão intelectual. Esse esforço se traduz em uma produção intelectual não academicista, na ação política e, principalmente, na entrega da palavra ao “último”.

 

 

LUCELMO LACERDA é Historiador e Mestrando em História Social pela PUC-SP. (lucelmo@gmail.com)

Paulo Freire, por uma educação libertadora

 

Esse mês completou-se 10 anos da morte do mais importante educador brasileiro (talvez mundial), Paulo Freire. O pernambucano atuou nos primeiros anos de carreira no Brasil, chegando a trabalhar para o Ministério da Educação no governo João Goulart. Por ocasião da Ditadura Militar, ele foi imediatamente demitido e depois preso e levado ao exílio no Chile. No exterior participou do processo de alfabetização de vários países, tais como o próprio Chile, sobretudo no governo de Eduardo Frei, mas também em outros lugares, como África e Europa.

Na Anistia, Freire voltou para o Brasil e continuou militando pela educação popular e pelo socialismo. Freire foi secretário de educação da Prefeitura de São Paulo no governo de Luiza Erundina em 1989 e 1990, quando foi substituído porque estava doente. Enfim, em 1997 Paulo Freire nos deixou, com a herança de uma vasta obra crítica acerca da educação e dos processos culturais em geral.

 A teoria freireana adentrou no senso comum vulgarizando-se. Quando perguntamos a um Professor (a maioria, infelizmente) sobre o pensamento de Freire, ele alonga a sobrancelha direita, franze a testa, com o ar inconteste de intelectual e lança: “Paulo Freire acreditava que se deveria ensinar a criança usando elementos de sua própria realidade”. Com variação de pouquíssimas palavras esta é a paupérrima afirmação professoral de nossos doutos mestres acerca do complexo pensador que foi Paulo freire.

Evidentemente, tampouco os limites deste artigo nos permite uma avaliação mais profunda do educador pernambucano. Penso, no entanto, ser possível elencar alguns elementos mais salientes de seu pensamento.

Primeiramente cabe lembrar que o método inventado por Freire para a alfebitização era considerado pelo mesmo como secundário, o importante é a filosofia da educação que embasava o método, fundada na qual, cada alfabetizador deveria formular seu próprio método.

Outro elemento importante é quanto ao papel da educação no mundo. Pasmem, incautos, Freire entendia que a educação não tinha potencial para transformar a realidade, o educador fundou-se n“A Ideologia Alemã”, de Marx e Engels e em sua própria experiência para afirmar que uma realidade, um sistema, não muda a si mesmo, desta forma, a educação, sobretudo a popular, não formal, deveria atuar no sentido de libertar pessoas e grupos de seus grilhões ideológicos e perceberem a lógica de exploração na qual estão inseridos, estes então, lutariam pela justiça e pelo fim da opressão, atuando no campo político da luta de classes e aí sim, mudando a realidade, a educação deveria então libertar pessoas, que se transformariam em povo e libertar-se-iam da exploração capitalista.

Mais um aspecto é a utilização de elementos “da vida do aluno” no processo educativo. Freire não tratava simplesmente de, ao invés de se trabalhar com a ponte de outra cidade, trabalhar com a que vizinha a escola. O conceito é trabalhar com as condições concretas de existência do indivíduo, de modo que ele se vê envolvido emocionalmente no processo de aprendizado acelerando-o, e desvela as contradições de seu próprio mundo, compreendendo o sentido e as máscaras da exploração. Assim, com um trabalhador rural, cabe trabalhar com as “palavras geradoras” terra, propriedade, planta, animal, patrão, com prostitutas, são bastante pertinentes as palavras sexo, violência, corpo, dignidade, e assim por diante. Também não se trata do Professor, pretenso portador do conhecimento, deglutir o significado das palavras e trazer para “depositar na cabeça [pretensamente] vazia do aluno”, mas sim de colocar frente a frente o sujeito cognoscente (aluno) do objeto de cognição (a realidade) e estimular o sujeito a realizar se próprio processo intelectual.

Por fim lembrar que, para Paulo Freire não há Professores e alunos como entidades separadas, mas o Professor é sempre também aprendiz e vice e versa.

Um abraço freireano, isto é, dialógico, igualitário e solidário!

 

LUCELMO LACERDA é Historiador e Mestrando em História Social pela PUC-SP (lucelmo@gmail.com)

Novos ventos em Aparecida

 

   De 18 a 20 de maio, aconteceu nos arredores da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, o Seminário Latino-Americano de Teologia, do qual participei. Este encontro, organizado pela Conferência Nacional do Laicato do Brasil trouxe uma nova luz sobre o que se sucede na V Conferência, as esperanças são grandes, a liberdade de circulação dos peritos e leigos nomeados é ampla, incluindo liberdade de pronunciamento. Realidade bastante diferente dos encontros de Puebla, 1979 e Santo Domingo, 1992, cuja repressão era imensa.

   Aguardemos confiando num bom resultado!

O que esperar da V Conferência do Episcopado, em Aparecida?

 

Enquanto acontece a V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe, na cidade de Aparecida, há uma grande expectativa quanto a seu texto final. Penso que tal expectativa se coloca diante da tradição da Conferência e, para se entender o debate cabe recorrer à elas, compreendendo a trajetória do evento.

A primeira Conferência aconteceu no Brasil, no Rio de Janeiro, em 1955, seu texto final não respondeu às necessidades pastorais a Igreja na América-Latina, fixou-se nos temas da moral e da família. No entanto, o evento foi marcante para o sub-continente porque fundou, no âmbito latino americano, o CELAM, Conselho Episcopal Latino-Americano.

O segundo encontro ocorreu em 1968, em Medellín, Colômbia, em nova conjuntura eclesial. Entre 1962 e 1965 ocorrera o Concílio Vaticano II, encontro dos bispos de toda a Igreja com o intento de modernizá-la. Tal encontro havia trazido alguns elementos fundamentais à nova conjuntura, sendo os mais importantes: a) a Igreja deixara de ser “Igreja corpo clerical” e passara à condição de “Igreja povo de Deus”, incluindo o laicato; b) admitira-se e até se estimularia a mediação das ciências para o entendimento da realidade humana; c) a forte presença da figura do Espírito Santo e, portanto, do princípio paulino, do carisma, oposto ao princípio petrino, do poder; e d) trazendo o princípio moderno da liberdade de consciência e da autonomia individual;

Tais princípios instalaram na Igreja um clima de efervescência teológica, de grande produtividade inventiva e o texto final de Medellín refletiu tal realidade. As ciências sociais críticas apareceram em todo seu vigor e a realidade de pobreza da América - Latina foi contundentemente condenada e a libertação dos pobres proposta, num texto bastante mordente, fundando a nova teologia latino-americana, três anos depois nomeada de Teologia da Libertação.

Em 1978 se elegera João Paulo II, e este pusera seu mandato em função de uma cruzada contra a Teologia da Libertação, TL. Em 1979, na III Conferência, em Puebla, no México, o Vaticano faz uma grande intervenção no evento, toda a organização da Conferência, na mão dos conservadores, impede os teólogos da libertação de participarem diretamente (indiretamente eles orientavam os bispos, pois estavam os arredores do encontro) e mesmo o discurso de abertura, a encargo do Papa, foi extremamente agressivo à TL. Ainda assim, o texto final não foi hegemonizado pela temática conservadora e elegeu a “Opção Preferencial Pelos Pobres” como norte pastoral da Igreja, irritando profundamente o Vaticano.

Na década de 80 o enfrentamento de Roma à TL foi o tema fundamental da ação de João Paulo II, era sua tarefa no esforço anti-comunista que o Papa assumira com Ronald Reagan, então presidente dos EUA. João Paulo II temia uma aliança entre a TL e os comunistas, orientado pelas equivocadas análises da CIA.

Então, na IV Conferência, em Santo Domingo, República Dominicana, houve novamente um grande investimento do Vaticano na orientação conservadora do texto final, o que foi, em parte, novamente frustrado pela permanência da tradição Medellín-Puebla, com um alargamento apenas do tema da libertação da realidade sócio-história para a libertação de toda uma “cultura da morte”.

No entanto, a década de 90 consolidou a derrocada do comunismo soviético e João Paulo II esgotara sua contribuição no esforço estadunidense de combate à sovietização do mundo. Desta forma, o papa polonês reorientou seus esforços para o tema da moralidade cristã como foco de sua ação. Dentro desta ampla temática, João Paulo II colocou três temas na pauta principal; a eutanásia, o aborto e a contracepção, colocando-se de maneira contundente contra as referias práticas.

Bento XVI acumula, em sua visita ao Brasil as duas principais preocupações de seu antecessor, está ainda obcecado por destruir a ainda fortíssima Teologia da Libertação, mas não tergiversa quando o assunto é a moralidade cristã, a que se soma a preocupação com a perda de fiéis na América Latina.

Neste sentido se inscreve a participação papal na V Conferência, no intuito de talhar o episcopado a confecção de um texto final que abandone a Teologia da Libertação, negando a tradição Medellín/Puebla/Santo Domingo e iniciando uma nova tradição e condenando o que Bento XVI chama de “ditadura do relativismo”, no que toca à conduta pessoal.

Podemos dizer, sem nenhuma dúvida, que o poder vaticano está sobremaneira proeminente no seio da Igreja latino-americana depois da política de João Paulo II de trocar o episcopado progressista por um outro corpo, totalmente alinhado a Roma. Assim, por mais contraditório que seja, a Igreja historicamente mais progressista do mundo, a do Brasil, recepcionou a Conferência mais conservadora, a de 1955, que deve elevar-se a modelo para a V Conferência, também no Brasil.

 

LUCELMO LACERDA é especialista em história da Igreja Católica no Brasil  e Mestrando em História pela PUC-SP (lucelmo@gmail.com)

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